2. ENTREVISTA 9.10.13

ANTNIO DELFIM NETTO - "O APOCALIPSE NO EST NA ESQUINA"

O ex-ministro da Fazenda critica a onda de pessimismo e diz que desconfianas do setor privado em relao ao governo Dilma no se justificam
por Amauri Segalla

 OTIMISMO - Delfim em seu escritrio: Crise no existe
 
O paulista Antnio Delfim Netto  uma voz dissonante do recorrente pessimismo demonstrado por alguns analistas de mercado e empresrios a respeito dos rumos da economia brasileira. Aos 85 anos, esse professor emrito da Universidade de So Paulo e ex-artfice do milagre do crescimento durante a ditadura militar no acha que o Pas vai de mal a pior, como argumentam os crticos do governo Dilma Rousseff, e v como injustificada a desconfiana do setor privado. O apocalipse no est na esquina, diz Delfim. Nesta entrevista, concedida s 8 horas da manh (horrio em que comea a dar expediente) em seu escritrio na zona oeste de So Paulo, ele fala tambm sobre o fracasso dos programas de concesses, compara o estilo da presidenta com o de seu antecessor e elogia a deciso de Dilma de cancelar a visita oficial que faria aos Estados Unidos. E, claro, destilou o veneno de sempre. Enquanto no PT o aparelhamento do Estado  com o companheiro de passeata, no PSDB  com o companheiro de tertlias.

"O Lula tem uma inteligncia intuitiva. No fundo, ele foi um grande acidente positivo na histria brasileira

Ao cancelar a visita aos EUA, Dilma mandou um recado claro a Obama: Ok, vocs so mais fortes, mas tm moral duvidosa" 

Isto - Afinal, existe ou no uma crise econmica no Brasil? 

Antnio Delfim Netto - Crise no existe. O que existe  um pessimismo muito superior quele justificado pelos fatos. Dizem que abandonaram-se os fundamentos indispensveis para a boa conduo da economia. No se abandonou nada. Vamos comear pelo acerto fiscal. Voc tem uma dvida bruta de 60% do PIB e um dficit fiscal de 2,5%.  uma situao desconfortvel, mas que no representa nenhuma tragdia. Se voc olhar bem, ver que o dficit fiscal vem sendo reduzido paulatinamente. 

Isto - Muitos especialistas dizem que h um risco inflacionrio. 

Antnio Delfim Netto - A inflao vem se mantendo mais ou menos dentro de uma margem aceitvel. Hoje, uma inflao de 6% no  baixa. Talvez haja cinco ou seis pases importantes com inflao igual a essa. No  uma inflao fora de controle, mas ela cria dificuldades, principalmente porque voc tem alguns preos controlados e um dia vai precisar absorver isso. A questo  que no h nenhum risco de a inflao explodir. Por mais que muita gente diga o contrrio, o fato  que o apocalipse no est na esquina. 

Isto - O sr. no acha que h certa desconfiana do setor privado em relao ao governo? 

Antnio Delfim Netto - Essa desconfiana nasceu agora, mas no  justificada. Basta olhar o que a presidenta Dilma fez. Por exemplo, a interveno no setor eltrico. Baixar o custo de energia  fundamental. A medida est certa. Em dois ou trs anos, ela vai resultar no aumento da eficincia das empresas. O problema  que se criou a ideia de que o setor privado  muito egosta, s pensa nele, e que o governo  o nico defensor das massas. As pessoas esquecem que, sem massas, o setor privado no funciona.  

Isto - O sr. mantm contato com muitos empresrios. Que viso eles tm do governo Dilma? 

Antnio Delfim Netto - Muita gente do setor privado enxerga no governo um bando de trotskistas enrustidos, que querem destruir o capitalismo. Nada disso, claro,  verdade. Duvido que Dilma tenha alguma restrio ao setor privado. Ela declarou recentemente, em Nova York, que o governo precisa no s dos recursos, mas da gesto do setor privado, que  mais gil e eficiente. Algum que declara isso numa reunio em Nova York para potenciais investidores no pode ser entendida como uma pessoa que queira fazer do Brasil uma Cuba. O que me parece  que o governo precisa acordar de novo o esprito animal dos empresrios. 

Isto - O sr. est dizendo que falta entusiasmo ao empresariado? 

Antnio Delfim Netto - O homem  um ser cclico. Um dia estou com grande entusiasmo, noutro tenho preocupaes e fico deprimido. O mecanismo do entusiasmo e da depresso se transfere como um vrus. Na economia  assim tambm, uma coisa contamina a outra. O trabalhador fica com medo de perder o emprego. Ele procura ficar lquido e, assim, reduz o consumo. O empresrio, no tendo certeza que vai haver demanda, reduz a produo e refora o sentimento de que a coisa vai piorar. Ele fica lquido tambm. O banqueiro acha que o outro banco est pior do que ele. Ento os bancos no emprestam mais entre si. Quando est todo mundo lquido, eles morrem afogados na liquidez, que  a recesso. Mas isso no vai acontecer com o Brasil.  

Isto - Que comparaes o sr. faz entre Lula e Dilma? 

Antnio Delfim Netto -  A presidenta  uma tecnocrata muita preparada. Sem dvida, trata-se de uma centralizadora, mas  sua forma de ser. J o Lula tem uma inteligncia intuitiva, quase natural, e exerce grande liderana sobre as pessoas. Ele  capaz de participar de uma reunio com dez sujeitos e depois fazer uma sntese, aproveitar o que tinha de bom naquilo e colocar em prtica. No fundo, o Lula foi um grande acidente positivo na histria brasileira.

Isto - Se o Pas melhorou, por que os brasileiros falam mal do Brasil? 

Antnio Delfim Netto - Porque  assim mesmo. A crtica do mercado  simples de entender. Era muito fcil ganhar a vida com taxa de juro real de 12%. Ganhar a vida com taxa real de 2%  mais difcil. Por isso, a crtica do mercado financeiro  irrelevante, no faz ccega.  uma coisa ridcula, por exemplo, os economistas fixarem as prioridades do governo. Cada economista tem no mximo o seu prprio voto. No tem nem o da mulher, porque ela desconfia dele.  

Isto - Por que os leiles do pr-sal e das rodovias no deram os resultados esperados? 

Antnio Delfim Netto - No tem nada de misterioso acontecendo. Se o governo quer estradas de certa qualidade, ele precisa fazer leiles competentes, com editais transparentes. Leilo  coisa para profissional e no para amador. O governo estabeleceu a qualidade desejada? O mercado define a partir da a taxa de retorno. O governo estabeleceu a taxa de retorno? Nesse caso,  o mercado que define a qualidade possvel. Pelo caminho correto, voc tem a menor tarifa para uma determinada qualidade. Pelo caminho que o governo segue, voc tem a menor tarifa com a pior qualidade. Ou seja, no funciona.  

Isto - O fracasso dos leiles no pode ter impactos negativos na economia? 

Antnio Delfim Netto - O sucesso dos leiles  fundamental porque  a primeira injeo na veia para aumentar a produtividade do sistema. Se eu melhoro a infraestrutura, o ganho de produtividade  espantoso. Digamos que, para chegar ao porto de Paranagu, uma tonelada de soja gasta 500 quilos. Se eu melhorar a infraestrutura, uma tonelada de soja vai chegar ao mesmo destino com 900 quilos. Esses 400 quilos de diferena representam ganho lquido de produtividade para o sistema inteiro, simplesmente porque a infraestrutura melhorou.

Isto - Parece simples de fazer, mas no se faz. Por qu? 

Antnio Delfim Netto - Porque o Brasil  dominado por corporaes que tm seus interesses. Por que esto se criando tantos partidos? Simplesmente porque  um comrcio, um negcio. Um partido  um negcio que recebe um fundo partidrio. Por que se criam sindicatos todos os dias? Porque tem o fundo dos sindicatos. 

Isto - Os interesses prprios resultam tambm no aparelhamento do Estado. 

Antnio Delfim Netto - O aparelhamento do Estado existe h muito tempo. No foi s o PT que aparelhou. O PSDB tambm. A diferena  que o PSDB aparelhava com companheiros de tertlias. No PT, o aparelhamento  com o companheiro de passeata.  

Isto - Um dia o Brasil ser um pas desenvolvido? 

Antnio Delfim Netto - No tenho dvida. O Brasil melhorou dramaticamente nos ltimos anos. A Constituio de 1988 mudou tudo para melhor. A Constituio quer uma sociedade em que haja a maior igualdade de oportunidades. Significa que no importa se voc foi produzido numa sute presidencial ou meio por acaso, num sbado  noite, embaixo do Museu do Ipiranga e com os seus pais bbados. Uma vez produzido, voc  senhor de direitos. No importa. Hoje, no h nenhum pas emergente com instituies to slidas quanto o Brasil. A prova disso  o Supremo. 

Isto - O Supremo trabalhou corretamente no julgamento do Mensalo? 

Antnio Delfim Netto - Quando eu vejo as pessoas ficarem tristes porque o Supremo est tentando fazer justia, acho apavorante. O Supremo no existe para fazer vingana, mas para fazer justia. O que aconteceu agora reafirma a minha convico de que caminhamos para o fortalecimento das instituies.  

Isto - A presidenta Dilma acertou ao cancelar a viagem oficial para os EUA depois das denncias de espionagem?  

Antnio Delfim Netto - Seria muito desconfortvel para a presidenta aceitar o convite de Obama. A espionagem diminuiu a nossa soberania. Com o cancelamento da visita, o Brasil mandou um recado claro: Ok, vocs so mais fortes, mas tm moral duvidosa. A fora da moral s vezes  maior do que a fora das armas.  

Isto - Quem faz falta no Brasil de hoje em dia? 

Antnio Delfim Netto - O Jos Bonifcio (Jos Bonifcio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independncia), que estava muito acima de sua gerao. Em 1824 ele queria dar instruo gratuita, acabar com a escravido. Era um cientista, uma mente brilhante. Se o Jos Bonifcio tivesse sido levado a srio, o Brasil seria os EUA.

Isto - O sr. era o terror da esquerda brasileira e depois se aproximou do PT. Que convices foram deixadas para trs? 

Antnio Delfim Netto - A pretenso de saber. Antes, eu acreditava mais no meu conhecimento do que acredito hoje. Atualmente, sou um sujeito muito mais relativista. 

Isto - Qual  o seu papel na construo do pensamento econmico brasileiro? 

Antnio Delfim Netto - Nenhum. Fiz aquilo que me cabia fazer, com o conhecimento e o poder que tinha. Fiz coisas certas, fiz coisas equivocadas. 

Isto - O sr.  um homem realizado? 

Antnio Delfim Netto - Muito. Quando voc tem sorte, nunca trabalha, porque faz o que gosta. Voc vive. Eu tive uma sorte louca.

